segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sobre o crescimento econômico brasileiro

Compartilho análise do professor Lucien Alhanati:
Restabelecendo a verdade
Qualquer dona de casa sabe que o sucesso de sua administração financeira não é avaliado somente pelo que ela recebe e sim pelo confronto entre que o que recebe e o que gasta. Não adianta ganhar muito se o gasto for maior ainda.
É desta maneira que ocorre em todas as organizações e deveria ser em relação aos países. Mas não é assim que é mostrado pela mídia e pelos “especialistas” onde só é avaliado o ativo. O passivo ambiental é ignorado. Será esquecimento, incompetência ou conveniência.
Vamos mostrar que o crescimento da economia brasileira é muito bom principalmente se comparamos com o de outros países e grupos econômicos. Se levarmos então em conta o passivo ambiental o nosso crescimento é ótimo. É preciso não esquecer que o passivo ambiental é uma conta que será paga obrigatoriamente pelo atual ou pelas futuras gerações, e quanto mais tempo passar maior será a conta a ser paga.
Vamos comparar o crescimento percentual do PIB brasileiro com o de outros países usando o gráfico elaborado com dados do FMI e publicado pelo jornal O Globo em 10/07/13.




O crescimento percentual do PIB brasileiro é praticamente igual ao da Rússia, supera o da África do Sul, dos EUA e do Japão, sendo superado apenas pelo da Índia e da China.
Vamos comparar o crescimento percentual do PIB brasileiro com o de blocos econômicos usando o gráfico elaborado com dados do FMI e publicado pelo jornal O Globo em 10/07/13.



O crescimento percentual do PIB brasileiro é apenas pouco inferior ao do mundo, que foi engordado com o da Índia e da China.
Qualquer economista sabe que toda atividade produtiva humana acarreta um passivo ambiental. Como não existem dados sobre o passivo ambiental produzido pelos países, vamos considerar apenas uma parte deste passivo utilizando os dados da demanda energética, via matriz energética. Levando em conta agora o passivo ambiental que corresponde em parte ao custo desta produção.

                                                                                  


Sabendo que as energias não renováveis são as grandes causadoras do passivo ambiental, verificamos que o Brasil consome 100 – 44,7 = 55,3% de energias não renováveis enquanto o mundo consome 100 – 13,3 = 86,7% e a China consome
100 – 5,6 = 94,4%. Consequentemente o passivo ambiental brasileiro causado pelo consumo de energia é muito menor que o mundial e o chinês.

Resumo: estamos muito bem, o que contraria os detratores da economia de nosso país.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Dia Nacional de Lutas

Quero registrar que ontem, 11 de julho de 2013, participei do dia nacional de lutas aqui no Rio de Janeiro. Não sei como a grande mídia reportou o evento e nem procuro mais saber, pois sempre mostram tudo diferente da realidade, parece até que falam de outro lugar.

A passeata pela Avenida Rio Branco foi bem bonita, as verdadeiras lutas justas estavam ali. Para mim, a melhor "ala" era a encabeçada pela Marcha Mundial das Mulheres, o pessoal da Kizomba-RJ junto a outros do movimento estudantil, movimentos de esquerda, a juventude do PT, todos animados por uma bateria linda, linda. "Juventude é revolução, juventude é revolução"... "feminismo é revolução, feminismo é revolução", cantávamos. Também, claro, havia as melôs contra a concentração midiática e eu ia recolhendo assinaturas para a iniciativa popular pela democratização das comunicações. Estávamos lá com nossos sonhos, partidos, nossas bandeiras e lutas de sempre. Como disse o Adilson Filho: "Desta vez não havia ninguém de nariz de palhaço, enrolado em bandeiras estilizadas do Brasil, com cartazes divertidos dos mais variados, devidamente ‘produzidos’ para ocasião. Acho que agora está provado que as milhares de pessoas que ‘incendiaram’ as ruas no mês passado e que formaram o ‘tal do gigante’ que acordou receberam a lenha da mídia e a gasolina do Facebook. Quando a pauta conservadora deu lugar à pauta progressista, o gigante voltou ao seu sono profundo. Nas ruas, só ficaram os que nunca dormiram". Foi um belo show.

No final, aquilo que a gente sabe. Um grupo de fascistas como "iscas" para a PM ter pretexto e ir com tudo para cima dos manifestantes. O gás lacrimejante tomou conta da rua – e da minha circulação sanguínea.



Fingiu que viveu



Desperte-se enquanto há tempo!

terça-feira, 9 de julho de 2013

Morte e tabu(s)


Defuntos provocam medo, cemitérios sempre relembram contos macabros e imagens sinistras. Desde criancinhas, nossa subjetividade e nossos valores são moldados de acordo com histórias e outras representações do bem contra um mal comumente associado às trevas, à escuridão e... à morte. Bicho papão, bruxa malvada ou lobo mau, no fim, todos querem nos matar, como se o término da vida fosse o pior de todos os males que alguém nos possa cometer. A morte, assim, tem se associado estreitamente ao sentimento de tristeza – pelo menos na cultura ocidental, de matriz judaico-cristã. Acontece que todo esse sentido tenebroso atribuído à morte, além de ser irracional, parece que acaba dando um verdadeiro nó no pensamento das pessoas, gerando confusões e problemas desnecessários. Para desatá-lo, acredito que é preciso quebrar o tabu que ronda o tema, sem que isso signifique jogar o direito à vida no lixo.
 
 
Primeiro, aos fatos: a morte é normal e natural. Também é vital, porque uns indivíduos morrem para alimentar outros e assim é que a vida do todo orgânico do planeta continua.

Em segundo lugar, diria que o sofrimento do luto é predominantemente egocêntrico porque tem origem no apego à vida, e não na morte em si, apesar e além da influência cultural  que dá um sentido negativo ao evento morte.
Com esse pano de fundo, pretendo enfrentar aspectos referentes à morte que envolvem pelo menos duas questões: o aborto e o veganismo.
 
Aborto
 
Nós, feministas, somos a favor do aborto legal. Em nossas campanhas, sempre frisamos que o Estado brasileiro é laico, logo não poderia proibir o aborto por causa da pressuposição dogmática religiosa de que a vida humana começa na fecundação do óvulo, uma vez que nem a própria ciência jamais concordou com isso. Afora toda a ampla elaboração argumentativa a respeito, quero aqui insistir em encarar um ponto, a ideia de que o aborto lida, sim, com a possibilidade de morte de vida humana de quem ainda está em gestação. É que muitas vezes invocamos diversos argumentos pró-escolha, mas não vamos às últimas consequências no enfrentamento da ladainha religiosa. Então vamos lá, vamos considerar que o aborto envolve a morte de um ser humano em formação.

Nunca é despiciendo lembrar que, no plano de nossa existência, as verdades são frutos de construções discursivas. Pelas vias racionais ordinárias, não temos acesso à "Verdade universal" (se é que ela existe em alguma dimensão), mas, filosoficamente propondo, ela pode existir. Nesse sentido, podemos supor, e somente supor (assim como podemos supor que o céu é verde), que, de acordo com a verdade, a vida humana começa exatamente como descrevem as religiões e, desse modo, o aborto equivaleria a matar alguém. Diante disso, continuo a favor do aborto porque o direito à vida não é absoluto (direitos são invenções humanas, não existem em absoluto ou por natureza). É lógico que não há critérios apriorísticos que autorizem, para qualquer situação, a cessão do direito à vida para dar lugar a outros direitos/necessidades, e isso sempre tornará polêmica qualquer questão que envolva um conflito com o direito à vida. No caso específico do aborto, porém, partimos de uma simples suposição – longe de ser consenso ou fato – de que o feto é um ser humano como qualquer outro. Ora, um dogma religioso é uma base muito frágil para sustentar o regramento de que as mulheres devam estar condenadas a servir de objetos, manjedouras ambulantes da humanidade, quer queiram ou não ter a experiência da maternidade. A vida das mulheres não é uma suposição nem uma promessa, é uma realidade concreta e não pode se curvar aos imperativos de ilações indexadas a uma mentalidade anti-emancipatória. Pelo exemplo do aborto, portanto, podemos afirmar que, ainda que a vida aconteça, pode ser interrompida por outrem sem que isso caracterize maldade ou crime. Trata-se de uma constatação resultante da ponderação de interesses, uma técnica do direito constitucional adotada em todos os países democráticos do mundo, que se preocupa com o atendimento aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Graças a essa técnica, resguarda-se a razão contra os excessos passionais dos fundamentalismos que as religiões fomentam, fazendo com que alguns direitos prevaleçam sobre outros em determinada situação de conflito entre direitos.
 
Veganismo
 
Um monte de gente vegana se diz cristã. Só que a bíblia diz que Jesus multiplicou os peixes para alimentar a população :/
 
A moda vegana continua. Digo moda porque, com o perdão do trocadilho, há algo de efeito manada nesse movimento ideológico segundo o qual matar bicho para fins alimentícios é um abuso por parte da espécie humana. Os "ursinhos carinhosos" de plantão, aquelas pessoas que aderem quase que  religiosamente a qualquer ideia fácil que pareça bonitinha, fazem a conexão direta entre morte, dor e maldade, reiterando o tabu da morte. É bom esclarecer que uma coisa é ser contra maus tratos, outra é ser contra matar o animal – é somente nesta segunda situação que reside a minha crítica.

Como em qualquer tabu, há uma magia, um misticismo envolvido na crença vegana. Assim como Marx explicou o fetichismo da mercadoria, noto que é justamente porque o bife sempre chegou pronto no prato do consumidor, que não participou de cada etapa do correspondente processo de trabalho, que, de repente, aquela carne passa a ser vista de maneira fetichizada. No mesmo raciocínio, os vegetais são praticamente iguais da terra para o prato, não sofrem uma transformação tão drástica quanto a do boi para o bife, de modo que o fetichismo não acontece nesse caso ou não acontece com tanta intensidade. E, então, os vegetais – que também morrem para que nos alimentemos – são dogmaticamente tidos como seres moralmente comestíveis só porque não sentem dor e têm uma experiência de vida muito diferente da nossa. No fundo, acho que o movimento de auto-identificação com os animais, humanos ou não, não deixa de ser mais um trabalho do ego. É uma autoimagem refletida, quase que um compadecimento baseado em um compromisso corporativista, a corporação e primazia dos bichos que se mexem e fogem por reflexo quando se veem ameaçados de morte. Para mim, que não vejo a morte como algo triste, o veganismo é uma tolice. Se for para ser mística, me identifico mesmo é com o misticismo autêntico, nascido na Antiguidade e baseado na experiência da fusão total com Deus. De fato, me sinto fundida a tudo na experiência do Ser. A partir dessa perspectiva, qualquer alteridade é uma falsidade: a matéria é só uma aglomeração de átomos e as cisões imageticamente forjadas pelos diferentes modos de  organização da matéria não resistem à força de uma profunda meditação, que me faz consciente de que integro o todo, em uma conexão com o divino, que está em todas as coisas e seres.

 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Meu corpo, meu campo de luta



O modo de enxergar certas coisas é tão arraigado no condicionamento cultural a que nos submetemos na vida, que é sempre bom nos policiarmos para evitar a própria covardia de só cairmos e sermos levados no fluxo geral do movimento do mundo,  seguindo seus possíveis erros graves. Nesse sentido, no que diz respeito à questão de gênero, me parece sempre oportuno relembrar a denúncia de Beuvoir: "não se nasce mulher, torna-se". Ser mulher é uma invenção cultural que bebe de toda a história da humanidade de opressão e dominação sobre quem, como eu, devido a uma probabilidade de 50%, nasceu com o corpo formado por células com cromossomos XX. Se eu tivesse nascido com o Y no lugar do X, meu presumido papel social teria outra configuração e o mundo estaria a meu favor. Mas, foi tudo X. Um critério físico. Uma chance, uma metade, um puro acaso biológico e, de repente, quando você vê, já está trabalhando mais,  ganhando menos, sendo fortemente hostilizada se ousar se comportar tão livremente quanto os da outra metade, que, acomodados no gozo de seus privilégios forjados culturalmente, reiteram o estranho costume de realizar absurdas discriminações negativas pautadas no critério visual (ou, quando o cérebro deles entende que um determinado corpo é feminino, já é suficiente para que atribuam àquela pessoa a aplicação de regras mais duras sob o manto cínico da proteção).

Já que é sobre o meu corpo que incide a diferenciação que me limita, fica claro que é exatamente ele meu campo de luta contra essa lógica redutora, que transformou a mera condição de minha existência em tabu. É através do meu corpo que existo e me desenvolvo – isto, sim, é a coisa mais natural do mundo. Portanto, por uma questão básica, evidente e de simples razoabilidade, até hoje é necessário que as sociedades façam o esforço de repensar seus olhares para que todos efetivamente vejam o óbvio de que 1) a diferença de sexo é só física e nada mais, e que 2) os gêneros, isto é, as imagens correspondentes a cada sexo, são invenções humanas e, mais que isso, políticas. Entre os corpos há política, relações de poder, e meu corpo é meu campo de luta porque, independentemente do contexto, o problema não está nele, mas na cabeça de quem o observa, toda comprometida com valores construídos através dos milênios em que a espécie humana habita a face da Terra. Foucault explica que os processos de subjetivação, que passam inexoravelmente pela memória, se dão diante da situação dos corpos, que refletem um campo de forças entre o controle e as resistências desse mesmo controle. O corpo é, nesse sentido, um lugar para a análise do poder, sobretudo do poder que se projeta no tempo, sendo o grande lugar da memória, corpo-arquivo.

O corpo-arquivo é o corpo da memória e memória do corpo, que, tal como explica Henri Bergson, é uma memória constituída pelo conjunto de sistemas sensório-motores que o hábito organizou e que é, portanto, uma memória quase instantânea à qual a verdadeira memória do passado serve de base. Para que uma lembrança reapareça à consciência, é preciso, com efeito, que ela desça das alturas da memória pura até o ponto preciso onde se realiza a ação. E é no presente que todos os tempos se tocam.

Por isso, enfim, todo dia é dia de batalha contra um excesso de poder que, de tão incrustado e constante na vida da gente, se fortalece na medida em que a muitos parece normal, ou mesmo invisível. Todo dia é dia de luta e meu corpo é o front da trincheira.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Acreditar na democracia

 
Apesar do triunfo dos valores democráticos no mundo, observamos as incoerências e dificuldades de concretização do projeto democrático em pleno século XXI: a sobrevivência das oligarquias e do poder invisível, a revanche dos interesses particulares, a limitação dos espaços políticos e a insuficiente educação dos cidadãos denotam a existência de "promessas não cumpridas" pelos ideais democráticos quando forçados a se submeter às exigências da prática (BOBBIO, 1997: 10).
No entanto, o reconhecimento da superioridade do valor moral da ideia de “governo do povo”, somado à constatação de que nenhum outro modo de governar se revela mais adequado às complexas sociedades contemporâneas, parece o bastante para que a busca do desenvolvimento democrático não perca fôlego.
 
De fato, é doloroso insistir na democracia brasileira, sobretudo quando identificamos traços gerais do povo brasileiro como o privatismo/individualismo, o conservadorismo, o acriticismo, a frivolidade e 
a ignorância. Contudo, teimo em acreditar na democracia porque respeito a coletividade, logo, é a coletividade, a maioria do povo, quem deve escolher o que é melhor para ela mesma obviamente protegidas as minorias, sem as quais não existem maiorias nem democracia, mas autocracia.
 
Temos agora uma oportunidade especial de exercer a soberania popular através de um plebiscito para reformar o sistema político institucional brasileiro, uma necessidade urgente. As vozes conservadoras do atraso já esbravejam contra a decisão popular, pois temem a democracia de verdade, o governo do povo. Acontece que, ainda que a decisão popular seja ruim, a experiência  nova  de aprofundamento da confiança no povo já é, por si só, um avanço para a democracia brasileira. Talvez um avanço seguido de um retrocesso, mas, para quem acredita mesmo na democracia, é preciso confiar no povo. É um equívoco inibir ou evitar a manifestação da vontade popular pelo voto democrático por medo de que essa vontade se volte contra a própria democracia. O povo é quem manda: se optar por menos democracia, me submeto a esse resultado com resignação, já contando que a História mostrará ao próprio povo o que ele fez para que tente novamente aprender com seus erros, entendendo e assimilando a sua responsabilidade e, dessa forma, ganhando mais maturidade política. É uma maneira hegeliana de pensar, mas entendo que não teremos uma democracia real, que vá além de seu aspecto meramente formal, sem o amadurecimento democrático calcado na experiência do povo, a experiência de que é ele quem está ditando seus próprios rumos. Só assim terá mais consciência política e se emancipará.
 
Por outro lado, o plebiscito pode representar um duplo avanço: a sua realização, per si, e uma reforma para melhor do sistema político, com obrigatoriedade de financiamento exclusivamente público de campanhas eleitorais, com proporcionalidade, coligações para eleições de deputados e vereadores e eliminação de suplência no Senado. Até mesmo sou favorável ao fim total do voto secreto. Está certo que negociações são inerentes à atividade política, e isso acaba justificando a necessidade de sigilo em certos casos para proteger o parlamentar de retaliações que prejudiquem o equilíbrio do jogo político e, por corolário, prejudiquem a representação do povo. Porém, me parece que já podemos tentar um modo mais transparente de fazer política. Cresçamos.
 
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BOBBIO, Norberto (1997). O Futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. São Paulo: Paz e Terra.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Tecnologia e o sentido de liberdade

A relatividade da liberdade humana é um fato intransmutável, mas o conteúdo dessa relatividade, até há pouco, variava de cultura para cultura e de tempos em tempos, apenas. Agora, no entanto, neste mundo cada vez mais globalizado, novas ferramentas tecnológicas têm produzido uma fortíssima alteração no sentido de liberdade que nos tocará a todos, sem exceção, definindo uma inescapável condição de vida humana. A questão que fica é: até que ponto é possível alterar o sentido de liberdade sem que ela mesma fique ameaçada? Ou, até que ponto a liberdade só se relativiza, sem ficar comprometida? 
Por outro lado, observamos que enquanto o desenvolvimento tecnológico avança, as populações humanas não são pré-consultadas ou bem informadas sobre o lançamento ao mercado de certas inovações que, vendidas como impressionantes maravilhas, entorpecem o juízo de consumidores que sequer imaginam o pesado sacrifício de liberdade envolvido, tanto nas suas próprias vidas como nas das próximas gerações. Então, se vivemos em sociedade, a opção por sérias restrições à liberdade não deveria ser decidida coletivamente após uma ampla e profunda reflexão?

Internet
A internet é, hoje, uma realidade inegável. Arquitetada para não ser entendida, é usada pelo público sem que quase ninguém entenda os intestinos de seu funcionamento. De tanto que nos ajuda, nela inserimos dados, trocamos mensagens pessoais, manifestamos gostos/preferências etc. Tudo o que acontece em nossas contas bancárias está em rede e, enfim, toda a nossa vida vai sendo registrada e armazenada pelos vários órgãos de espionagem do planeta, sendo a Google o mais famoso deles. Na verdade, a Google não foi criada com essa intenção, mas acabou servil à CIA e ao governo dos Estados Unidos. Não se trata de paranoia, teoria conspiratória ou terror: é fato, basta se informar. A internet é o sistema panóptico mais eficaz que já se inventou. Se a rede tivesse sido arquitetada em moldes democráticos, na lógica do software livre e da criptografia, poderíamos ter os benefícios da internet, mas sem a violação de nossa privacidade/liberdade. Do jeito que está, somos reféns de um sistema de catalogação que exerce controle e vigilância sobre nossas vidas e que sabe mais de nós do que nós mesmos. Como já disse aqui, um pequeno grupo de pessoas espalhadas por vários países, os cypherpunks, trabalham em defesa da liberdade humana, entendida como a possibilidade de viver sem que ninguém lhe observe permanentemente e lhe coíba a partir da informação que tenha coletado a seu respeito. Fora os cypherpunks e os raros conhecedores da vida anônima na rede, todo mundo está sendo espiado. Será que essa situação simplesmente nos dá um novo sentido de vida em liberdade ou, efetivamente, nos tolhe a liberdade?

Brainet
O neurologista brasileiro Miguel Nicolelis, que trabalha na Universidade de Duke, na Califórnia (EUA), vem desenvolvendo há décadas pesquisas cujos resultados já poderemos observar dentro dos próximos anos, coisas que pertenciam apenas ao mundo da ficção científica. Trata-se das descobertas sobre interfaces homem-máquina, a partir das quais, por exemplo, paralíticos poderão andar apenas ao vestir uma roupa especial; poderemos tocar – ou melhor, ter a sensação perfeita de tocar – a superfície de Marte sem sairmos de onde estamos; acessar a internet, dirigir carros ou pilotar helicópteros apenas com a força do pensamento. Parece fantástico. Conforme o próprio cientista aponta em seu livro Muito Além do Nosso Eu, também está em vias de concretização a brainet, isto é, uma espécie de internet que funcionaria entre os cérebros humanos, como telepatia. Para ilustrar, podemos visualizar uma pessoa conversando com outra a quilômetros de distância simplesmente através de pensamento, sem troca de palavras verbais ou escritas. Seria possível, inclusive, coibir comportamentos humanos só pelo pensamento.
Mas onde está o debate popular acerca disso? Por que a maior quantidade de informação possível sobre as pesquisas não é ventilada em grande escala para que as sociedades decidam se vão e se efetivamente querem conscientemente assumir os riscos das perigosas implicações das tecnologias panópticas antes de se verem completamente dominadas em suas tramas?
À lógica capitalista, por óbvio, não interessa conscientizar ninguém sobre os problemas existenciais advindos das inovações, cujo desenvolvimento é financiado como um grande investimento com o único objetivo de lucro. Portanto, é urgente que haja mais sensibilidade, coragem e ousadia por parte dos governos e da própria sociedade civil para cobrar explicações e garantias de proteção às liberdades antes que seja tarde demais. Tentar adaptar as legislações depois que o estrago se produz pode nem sempre ser possível, e, se for, parece muito mais custoso.