A relatividade da liberdade
humana é um fato intransmutável, mas o conteúdo dessa relatividade, até há pouco, variava de cultura para cultura e de tempos em tempos, apenas. Agora, no entanto, neste mundo
cada vez mais globalizado, novas ferramentas tecnológicas têm produzido uma
fortíssima alteração no sentido de liberdade que nos tocará a todos, sem
exceção, definindo uma inescapável condição de vida humana. A questão que fica
é: até que ponto é possível alterar o sentido de liberdade sem que ela mesma
fique ameaçada? Ou, até que ponto a liberdade só se relativiza, sem ficar comprometida?
Por outro lado, observamos que enquanto o
desenvolvimento tecnológico avança, as populações humanas não são
pré-consultadas ou bem informadas sobre o lançamento ao mercado de certas inovações que,
vendidas como impressionantes maravilhas, entorpecem o juízo de consumidores que
sequer imaginam o pesado sacrifício de liberdade envolvido, tanto nas suas próprias vidas como nas das
próximas gerações. Então, se vivemos em sociedade, a opção por sérias restrições à liberdade não deveria ser decidida coletivamente após uma ampla e profunda reflexão?
Internet
A internet é, hoje, uma realidade
inegável. Arquitetada para não ser entendida, é usada pelo público sem que quase
ninguém entenda os intestinos de seu funcionamento. De tanto que nos ajuda, nela inserimos
dados, trocamos mensagens pessoais, manifestamos gostos/preferências etc. Tudo
o que acontece em nossas contas bancárias está em rede e, enfim, toda a nossa
vida vai sendo registrada e armazenada pelos vários órgãos de espionagem do
planeta, sendo a Google o mais famoso deles. Na verdade, a Google não foi criada
com essa intenção, mas acabou servil à CIA e ao governo dos Estados Unidos. Não
se trata de paranoia, teoria conspiratória ou terror: é fato, basta se informar.
A internet é o sistema panóptico mais eficaz que já se inventou. Se a rede
tivesse sido arquitetada em moldes democráticos, na lógica do software livre e
da criptografia, poderíamos ter os benefícios da internet, mas sem a violação
de nossa privacidade/liberdade. Do jeito que está, somos reféns de um sistema
de catalogação que exerce controle e vigilância sobre nossas vidas e que sabe
mais de nós do que nós mesmos. Como já disse aqui, um pequeno grupo de pessoas espalhadas por vários países, os cypherpunks, trabalham em defesa da
liberdade humana, entendida como a possibilidade de viver sem que ninguém lhe
observe permanentemente e lhe coíba a partir da informação que tenha coletado a
seu respeito. Fora os cypherpunks e
os raros conhecedores da vida anônima na rede, todo mundo está sendo espiado. Será que essa situação simplesmente nos dá um novo sentido
de vida em liberdade ou, efetivamente, nos tolhe a liberdade?
Brainet
O neurologista brasileiro Miguel
Nicolelis, que trabalha na Universidade de Duke, na Califórnia (EUA), vem
desenvolvendo há décadas pesquisas cujos resultados já poderemos observar
dentro dos próximos anos, coisas que pertenciam apenas ao mundo da ficção
científica. Trata-se das descobertas sobre interfaces homem-máquina, a partir das quais, por exemplo,
paralíticos poderão andar apenas ao vestir uma roupa especial; poderemos tocar –
ou melhor, ter a sensação perfeita de tocar – a superfície de Marte sem sairmos
de onde estamos; acessar a internet, dirigir carros ou pilotar helicópteros apenas
com a força do pensamento. Parece fantástico. Conforme o próprio cientista
aponta em seu livro Muito Além do Nosso
Eu, também está em vias de concretização a brainet, isto é, uma espécie de internet que funcionaria entre os
cérebros humanos, como telepatia. Para ilustrar, podemos visualizar uma pessoa
conversando com outra a quilômetros de distância simplesmente através de pensamento,
sem troca de palavras verbais ou escritas. Seria possível, inclusive, coibir
comportamentos humanos só pelo pensamento.
Mas onde está o debate popular acerca
disso? Por que a maior quantidade de informação possível sobre as pesquisas não
é ventilada em grande escala para que as sociedades decidam se vão e se efetivamente
querem conscientemente assumir os riscos das perigosas implicações das
tecnologias panópticas antes de se verem completamente dominadas em suas tramas?
À lógica capitalista, por óbvio, não
interessa conscientizar ninguém sobre os problemas existenciais advindos das
inovações, cujo desenvolvimento é financiado como um grande investimento com o
único objetivo de lucro. Portanto, é urgente que haja mais
sensibilidade, coragem e ousadia por parte dos governos e da própria sociedade
civil para cobrar explicações e garantias de proteção às liberdades antes que
seja tarde demais. Tentar adaptar as legislações depois que o estrago se produz
pode nem sempre ser possível, e, se for, parece muito mais custoso.
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